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Que Turismo para os Açores? (2ª parte)

A recente demolição da casa do morgado Caetano de Andrade Albuquerque, em Ponta Delgada, poderá servir como ponto de viragem para uma nova forma de encarar o respectivo centro histórico, e também outros centros históricos do arquipélago.
É certo que as grandes casas antigas muito dificilmente podem hoje ser reabilitadas para habitação de uma só família. Porém, podem ser recuperadas para outros fins compatíveis com a sua estrutura e aspectos decorativos, e não necessariamente com fundos públicos.
Hoje em dia, há um debate crescente sobre o alojamento em cidades como Lisboa e Porto. No caso concreto do Porto, são numerosas as vozes críticas sobre a transformação em hotel de vários edifícios antigos numa mesma rua, não só pelo que isso retira de vivência da rua por parte de residentes, inflaccionando os preços dos poucos edifícios disponíveis para arrendamento ou venda, mas também pela descaracterização que as normas legais impostas aos estabelecimentos de hotelaria acaba por implicar em edifícios que foram concebidos com outra escala e para outros fins. Contudo, e assevero-o pela minha própria experiência profissional, há casos em que os edifícios antigos que são adaptados a hotel possuem características adequadas a uma adaptação sem descaracterização. Ora, quando certos edifícios, pela sua tipologia e pelos muitos anos que levam de abandono, exigindo grandes despesas de investimento e ameaçando ruína ou sendo foco de vandalismo, começam a ser fonte de preocupação por parte dos responsáveis municipais, é natural que, perante a intenção de um investidor em os reabilitar, tendam a fazer concessões excessivas, de modo a não serem acusados de inviabilizar a possibilidade de reabilitação.
Sem conhecer bem o processo da casa do morgado Caetano de Andrade Albuquerque, em Ponta Delgada, suponho que tenha sido esse o caso.
O edifício tinha dois alçados. Sacrificou-se um deles, talvez por ser o das traseiras, talvez por ser de frontaria menos regular, possivelmente porque o contexto edificado das redondezas estava já descaracterizado. Porém, o que se destruiu foi um dos melhores exemplos da arquitectura de elite tipicamente açoriana: perdeu-se mais um edifício autêntico e com características decorativas decorrentes das contingências locais, em termos de materiais, clima, relação com o mar, etc. Em vez disso, e de acordo com as imagens que têm sido divulgadas, surgirá um alçado contemporâneo banal, que tanto pode estar na Amadora, ou nos subúrbios de Paris.
Com esta demolição, não tenho qualquer dúvida que Ponta Delgada ficou mais pobre e assusta-me que este caminho de homogeneização da arquitectura da cidade se estenda a vários outros casos menos imponentes que já testemunhei, mas que quase ninguém reparou.
Ponta Delgada tem muitos exemplos do que se deve fazer, pelo que não se pode aqui alegar falta de boas práticas passíveis de serem replicadas. Dentro do que não se deve fazer e há muito foi constatado, não faltam também exemplos pedagógicos: desde Santarém, que há cerca de vinte anos viu cair por terra a sua candidatura a Património da Humanidade, muito por ter deixado descaracterizar o seu miolo urbano, apenas olhando para os monumentos mais vistosos; até ao Funchal, cujo paralelismo com a realidade açoriano e evidente.
Em Ponta Delgada, há erros do passado que são irreversíveis. Apenas a título de exemplo, alguns dos edifícios mais interessantes, do ponto de vista do visitante, e refiro-me a fachadas azulejadas do século XIX, estão hoje em becos criados pela avenida aberta há muitas décadas na frente do mar.
Mas o que é mais dramático é o aparente desconhecimento sobre aquilo que torna a arquitectura dos Açores distinta e, sob o ponto de vista do visitante, apetecível para fruição, por ser autêntica, diferente do que se tem à porta de casa. A casa do morgado Caetano de Andrade Albuquerque, em Ponta Delgada, revestia-se de alguns desses aspectos, como o recurso a pedra branca exógena para enobrecer as zonas da fachada que se queriam destacadas, o mirante voltado ao mar, o uso de tabuado em madeira para estruturar varandins e rendilhados de beiral, o ferro fundido decorativo, que é presença habitual mesmo em casas modestas posicionadas em ruas estreitas que, em outra qualquer vila ou cidade de Portugal continental não teriam sequer grade de sacada decorada.
Surpreende-me que estas particularidades regionais não sejam melhor estudadas e objecto de divulgação junto de diferentes públicos, para que quem possua os edifícios e quem neles vá intervir (ou aprovar as respectivas intervenções) esteja inteirado do que é tipicamente açoriano e merece ser preservado e valorizado.
Há já décadas de conhecimento sobre a arquitectura tradicional dos Açores, sim; e até trabalhos mais recentes sobre a arquitectura erudita, ou sobre vários edifícios concretos. Porém, noto muitos vazios de conhecimento, sobretudo sob o ponto de vista comparativo com a arquitectura portuguesa no seu todo, ou então, um conhecimento muito fechado nas paredes da universidade e que não passa para onde deveria passar.
Exemplifico com uma das coisas que mais me surpreendeu na primeira vez que estive em S. Miguel: as canadas delimitadas por altos muros, do tempo do “ciclo da laranja”. É algo cuja existência, fora dos Açores, praticamente não é conhecida e, dentro dos Açores, é totalmente negligenciada. No entanto, é uma característica autêntica, única, marca de um período histórico, do saber-fazer tradicional e das contingências locais. Muitas destas canadas foram interrompidas por estradas; outras estão cobertas com mato, outras servem de vazadouro de lixo; Não são, pois, fruíveis. Porém, sendo reabilitadas as que ainda é possível reabilitar, dariam um excelente produto turístico complementar ao Turismo de Natureza. Caminhadas nas canadas, provas desportivas nas canadas… todo um mundo de possibilidades que se abre.
Outro aspecto que me surpreendeu nos Açores em geral é a imagem que a calçada dita “à portuguesa” confere aos centros históricos e que, pela coloração da pedra vulcânica, pela pequena escala dos edifícios e arruamentos, creio ser bem mais marcante nas ilhas do que em Lisboa, por exemplo. E, no entanto, nos últimos anos, tem havido grande contestação ao facto de se substituir este tipo de pavimento em Lisboa, por vezes caindo-se no extremo de considerar tal solução como “inventada” na capital portuguesa e única e exclusiva daquela cidade. Os lisboetas sabem que, do ponto de vista do turista, é algo que marca, que distingue a cidade. Os açorianos creio que ainda não perceberam isso, talvez porque esse tipo de calçada vem persistindo e não está ameaçado de desaparecimento gradual. Porém, há que prevenir: nos Açores, a descaracterização, pelo que tenho constatado, não parte só do desconhecimento, mas também de um pré-conceito sobre o valor do seu Património que quase parece provir de um sentimento de inferioridade. Custa-me ver que são os próprios açorianos quem dá menos valor ao que os seus antepassados construíram, aos seus edifícios, aos seus muros, às suas calçadas.
E já agora, para rematar, sugiro também que o destino turístico Açores passe a publicitar, como ponto forte, o seu clima. É que o facto de o boletim meteorológico raramente indicar um dia de céu limpo nas ilhas criou a ilusão, nos portugueses do continente, de que nos Açores está sempre a chover. E, na hora de escolher um destino de férias, esse mito prejudica muito os Açores.
Na primeira parte deste artigo referi-me ao facto de a paisagem açoriana ter muitas semelhanças com a paisagem das ilhas britânicas e que isso poderia fazer com que, para o turista britânico, os Açores não fossem tão apetecíveis. Porém, se a promoção do destino Açores passar também pela promoção do clima temperado, em que podemos ver pessoas de t-shirt e calções a levar os filhos à escola em muitos dias dos meses de Inverno, estou convencido que isso terá um efeito benéfico. A amplitude térmica não muito grande pode fazer dos Açores um dos destinos turísticos portugueses com menos problemas de sazonalidade, tal como sucede com a Madeira, com a vantagem de não ser um destino de sol e praia e, portanto, os riscos de massificação serem menores.
Num artigo de opinião, não é possível passar da superficialidade, mas penso ter demonstrado que há muito mais para debater do que aquilo que se tem debatido sobre o Turismo nos Açores; e que há bastante caminho a fazer para se conhecer melhor o que é realmente de valor no Património açoriano. O Turismo que os açorianos precisam é aquele que valoriza o que os Açores têm de melhor. Que essa seja sempre a premissa.

Francisco Queiroz

Ilustração por: Luís Cardoso

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