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“Quem viveu uma experiência de emigração tem sempre vontade de voltar”

Nélia Silva é a Vice-Presidente da Associação dos Emigrantes dos Açores (AEA) e falou à AzoresNews sobre a emigração, sobre o ir e o voltar.
Dar apoio e orientar os que voltam e os que querem ir é o objetivo máximo desta associação.
Com representantes da Direção e colaboradores em quase todas as ilhas, a AEA organiza, pela primeira vez, um seminário sobre a emigração. O evento decorre já na próxima sexta-feira, 17 de fevereiro, no Nonagon, na Lagoa. Como nasce a AEA?

Esta associação foi criada pelo Luís Silva, o Presidente; eu sou a Vice-Presidente. Sentimos a necessidade de ser uma voz ativa para os nossos emigrantes que chegavam, uma representação daqueles que foram, que vieram e dos outros que ainda lá estão. Criamos a associação em 2010. Queríamos uma entidade que servisse de elo com os emigrantes. Esta é uma associação sem fins lucrativos, que vive de voluntariado. Qualquer um pode ser sócio, não apenas os emigrantes. Temos associados que são amigos de emigrantes, por exemplo. Optamos por não ter quotas fixas, porque não queremos exigir nada às pessoas. Os associados dão os donativos que podem e querem.
Nós somos os que fomos e que regressamos, emigrante é aquele que foi e que volta. O nosso símbolo possui a imagem do cagarro, que é uma ave migratória, exatamente por ser aquela que vai e que volta!
A associação tem um protocolo com a Direção Regional das Comunidades. Estamos sempre presentes, e damos o nosso contributo, em tudo o que se relacione com a emigração. Temos uma pagina web, uma sede para receber os nossos emigrantes e vários protocolos com entidades, como as Casas dos Açores, por exemplo. É nosso objetivo dar uma palavra amiga e de ajuda a quem chega ou a quem vai. Com os nossos contatos, podemos conduzi-los às entidades corretas, pois as pessoas querem saber o que fazer para ficar cá ou para ir.
Quem viveu uma experiência de emigração tem sempre vontade de voltar; tem um pé lá e outro cá, quase! Vive em dois países ao mesmo tempo!

É diferente hoje emigrar?

A emigração está muito mais limitada, mas também o Canadá, para onde eu emigrei, não seria o país que é hoje se não tivesse as regras que tem; e mesmo assim acontecem ilegalidades. A maneira correta de ir não é ilegalmente, apesar de as pessoas quererem ganhar uns trocos a todo o custo. O Canadá é dos países melhores para se viver. No entanto, as coisas mudaram muito, pois o nível de vida encontra-se muito elevado. Pode não haver trabalho ao lá chegar. É preciso ter cuidado e preparar legalmente a ida, pois as consequências podem ser muito complicadas de gerir.
A AEA faz comunicações com os consulados para saber as condições necessárias para emigrar, para ajudar a facilitar todo este processo. Por isso, aconselhamos as pessoas a irem de forma legal.

No regresso existem muitas dificuldades?

Sim, algumas. A adaptação às burocracias, por exemplo. Uma das coisas que a associação ainda não conseguiu, mas que quer, é um guia de instruções para quem chega saber o que deve fazer. Há muitos pormenores que não são ditos nem explicados. Há quem me tenha dito quando regressei: “se sabias que era assim para que regressaste?”
Encontrar trabalho também se revela complicado quando se regressa, assim como o reconhecimento académico. De cá para lá é muito mais fácil utilizar o grau académico, por exemplo.
No entanto, os nossos emigrantes hoje em dia não têm perspetivas de voltar, apesar das saudades. É muito raro!

O que falta melhorar na AEA?

Temos falta de membros ativos, vivemos do voluntariado apenas. Além disso, não temos o tempo suficiente para realizar mais eventos como gostaríamos. Manter uma página web atualizada com os eventos também não é fácil, pois cada um de nós tem uma vida paralela à da associação.
Queremos, também, que as entidades competentes nos ajudem a mostrar a importância da emigração. Não há um registo do impacto que a emigração teve nos Açores, por exemplo. Isso faz falta. Queremos fazer um estudo com a Universidade dos Açores sobre o impacto que a emigração teve no desenvolvimento dos Açores. O nosso arquipélago não seria o que é sem a emigração.
Pretendemos, de igual forma, reforçar o papel do emigrante a nível da nossa sociedade. Queremos dar o direito ao voto aos nossos emigrantes. Estamos em negociações para isso. O Governo Regional dos Açores tem sido recetível à ideia, mas por em prática é diferente.

De que mais se lembram os nossos emigrantes em relação aos Açores?

Da SATA, por exemplo. A SATA foi dos nossos emigrantes e continua a ser. Eles não se esquecem quando saíram do Aerovacas para emigrar; não se esquecem momentos destes. A SATA foi a porta para a América e para o Canadá. Hoje em dia não há um emigrante que não procure a SATA. Esta empresa tem um papel muito importante com a nossa diáspora. SATA é SATA: é isso que eles sentem! E não escolhem, por nada, outra companhia aérea.
Sentem, também, saudades das manifestações religiosas, da natureza, das tradições, etc., tanto que tentam recriar de tudo um pouco nas comunidades onde residem.

Esta semana acontece o primeiro seminário da AEA. Fale-nos sobre ele.

É verdade. No próximo dia 17 de fevereiro, no Nonagon, na Lagoa, vai decorrer o 1.º Seminário da AEA, sob o tema “Perspetivas para o futuro de um emigrante de ontem ou de hoje”. Para a realização do seminário contamos com o apoio do Professor Carlos Teixeira, residente em Vancouver, que é um dos membros da direção. Não há pessoa mais indicada para preparar um evento deste tipo, pois ele tem ambição e amor pela nossa terra. Ele sempre quis realizar algo interessante que marcasse a associação e a emigração nos Açores e o seminário acontece nesse sentido.
Pretendemos, no final deste seminário, ter pontos de partida para o futuro. Não será o único, mas será o pontapé de saída.
Há muito a resolver e, por vezes, não é fácil fazê-lo. Porém, vamos percorrendo caminho e fazendo a diferença nesta área da melhor maneira que podemos.

Patrícia Carreiro

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